O “Diário de Viagem de Benedita” de Rita Queiroz vai muito além do relato de uma viagem à Portugal com uma amiga próxima (Benedita Pini). A exposição também não se trata de uma simples mostra de artes plásticas. O “diário de viagem” é uma cortina translúcida que mostra em segundo plano a trajetória das lembranças que Rita resgatou nos últimos meses durante o processo de criação da exposição. “Essa exposição foi diferente pra mim. Ela que me guiou no processo. Eu sempre dominei a situação, eu sempre fiz pesquisa para montar um trabalho! Agora foi diferente. Essa exposição mexeu comigo.” Nas próprias palavras de Rita Queiroz, o retrocesso, a reflexão da trajetória de 35 anos de artes plásticas e a regressão nos detalhes do passado são o tom recortado, fragmentado, recosturado que aparecem em suas bonecas e bonecos de pano. Cada figura escultórica de Rita é construída a partir dos fragmentos de memória, dos retalhos da vida. Esse foi o processo. A remontagem de uma realidade muito viva para ela até hoje: a luta e perseverança pelas artes plásticas em Rondônia. A luta contra o descaso com a cultura local. A reivindicação de direitos e do respeito devido à figura do artista. A luta por uma educação que valorize a cultura, preserve os conhecimentos dos mais antigos, conheça e reverencie os costumes dos povos que vieram lutar em Rondônia e por aqui ficaram.
Rita não faz uma simples alusão ao antigo berço europeu: Portugal. Ela não pode desconsiderar que lá viu os conhecimentos e a cultura material e imaterial sendo passada por gerações. Onde a rendeira aprende com a mãe e ensina a filha pequena. Onde não se esquece que quem criou um tipo de ferramenta para um corte específico na madeira foi o bisavô. Essas alusões aparecem no trabalho de Rita Queiroz por um simples motivo: não estamos nos reconhecendo em nossa memória. Esse é o alerta de Rita Queiroz para Porto Velho e Rondônia. Logo não se saberá a história, pois ela não está sendo de interesse atual. Quem conversa com Rita sabe, ela pode fazer uma lista de artistas esquecidos por seus conterrâneos: nomes como Léo Bona, José Fona e até o próprio Afonso Ligório foram esquecidos de seu valor para as artes plásticas no Estado de Rondônia. Poucas pesquisas foram feitas sobre essas pessoas. O material artístico produzido por eles, principalmente as pinturas parietais de Afonso Ligório estão se deteriorando no tempo. Mas esses são exemplos isolados. Existe uma gama de conhecimentos que estão se perdendo.
A Secretaria de Esportes, da Cultura e do Lazer – SECEL – tomou a iniciativa e está gravando um documentário sobre Rita Queiroz e essa exposição específica (Bill Marques). Um fragmento do material já registrado virou a chamada para a exposição que está no início deste post.
Rita Queiroz convida professores de Arte, Literatura, Português e outras disciplinas para visitarem a exposição com seus alunos. Uma coisa com certeza esses alunos poderão dizer no futuro – eu conheci Rita Queiroz pessoalmente e ela é uma pessoa amável, doce e de um coração repleto de esperança.
Lima Júnior












